O Maio de 68 na França
O movimento de maio de 1968 começou com protestos contra a Reforma Universitária do governo De Gaulle – o plano Fonuchet – na universidade de Nanterre. Logo após, os estudantes da Sorbonne, uma das mais conceituadas universidades francesas, começaram a organizar protestos também. Quando a universidade foi fechada pela reitoria, os estudantes resolveram ocupar o bairro latino (Quartier Latin), encontrando apoio popular, logo também manifestado nas fábricas. Os trabalhadores fizeram greve em solidariedade aos estudantes. As direções da CGT (Confederação Geral do Trabalho) e da UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses), bem como o PCF (Partido Comunista Francês) e o PS (Partido Socialista) – que vinham tentando de todas as maneiras sufocar o movimento –, conseguiram por fim seu objetivo, canalizando o descontentamento das massas para as eleições. Assim acabou o movimento, traído pelas direções da classe.
Os ataques do capitalismo hoje
Atualmente também temos uma Reforma Universitária em curso, orquestrada pelo governo Lula. Não só o governo petista, mas diversos outros atacam os direitos da classe trabalhadora; nenhum desses direitos foi dado de presente, todos eles foram conquistados à custa de muita luta, suor e sangue.
Isso é uma necessidade do capitalismo hoje. Este não pode mais continuar a privilegiar uma minoria sem jogar na miséria uma quantidade cada vez maior de pessoas. As crises cíclicas – tanto econômicas como financeiras – se repetem numa velocidade alarmante, e para manter sua taxa de lucro, o capital precisa “cortar gastos” – os direitos trabalhistas e as subvenções do Estado, tais como a saúde, a educação, a previdência, entre diversas outras. Além disso, atacam ainda as organizações dos trabalhadores, os sindicatos – a Lei das Centrais Sindicais nada mais é do que a subordinação destas aos governos, que defendem os empresários às custas do trabalhador.
A juventude é quem mais sofre com todos estes ataques. Além das derrotas impostas pelas direções aos trabalhadores – o que significa que os jovens de hoje terão de lutar com mais força amanhã para reconquistar o que foi perdido –, a educação tem sofrido ataques devastadores. As salas de aula apinhadas não dão chance de que os professores ensinem aos alunos, a falta de verbas se reflete no nível do ensino e no número de materiais “gratuitos” (os livros didáticos, por exemplo, são praticamente desconhecidos no Ensino Médio); em nível universitário, há o ProUni, que compra vagas nas universidades privadas, e o ReUni, que aumenta o número de alunos nas salas de aula. O acesso à universidade é, ainda, privilégio de poucos.
Além disso, convém lembrar a falta de perspectiva dos jovens no mercado de trabalho. Não é fácil encontrar uma vaga para quem não tem experiência; quando finalmente o jovem consegue um emprego, é ganhando menos do que o trabalhador comum da área, sem carteira assinada, geralmente. A carga horária torna extremamente complicada a dupla jornada (emprego e estudo), e o jovem trabalhador tem que fazer verdadeiros malabarismos para continuar estudando.
Vejamos uma rotina comum a muitos jovens em nosso país e no mundo. Ao concluir os estudos “normais”, digamos aos 18 anos, o adolescente procura emprego – isso se já não estava trabalhando antes, nas condições expostas acima. Descobre que o diploma do ensino médio não permite que encontre um emprego que lhe permita se sustentar; então, aceita um emprego com remuneração baixa, e vai prestar vestibular – se puder, pagará um curso preparatório; senão, terá que estudar em casa mesmo, sozinho. Geralmente não consegue entrar na universidade de cara, na primeira tentativa, pois o trabalho lhe deixa cansado e com pouco tempo e disposição para estudar e se preparar. Na segunda vez, aos 20 anos, procura uma universidade onde o ingresso seja mais fácil, mas onde, porém, o curso é mais caro. Bom, pelo menos conseguiu entrar na faculdade. Agora, se colocam mais problemas à sua frente: seu salário e sua carga horária não são adequados para que faça o curso normalmente, com as cadeiras comuns a cada semestre. Vai fazendo uma ou duas por vez, para conseguir estudar e se manter no emprego. Com isso, o curso, de 4 anos, passa a 6 ou mesmo 8, e enfim, se o jovem conseguiu se manter na empresa durante o mesmo, se passou por todas as cadeiras sem precisar repetir, lá está ele, na formatura, aos 26 ou 28 anos.
Isto foi uma amostra, otimista até, do caminho que a maior parte dos jovens de hoje em dia têm de percorrer para conseguir um diploma universitário. Porém, se quiser ganhar um pouco mais, ele deve fazer uma pós-graduação ou especialização; e lá vem a dupla jornada novamente. Obviamente, isto não garante que consiga um emprego compatível com sua formação – muitas vezes isso só significa que ele terá um “algo mais” a mostrar no currículo ao disputar uma vaga em que seja necessário o diploma de ensino médio.
Mas e então, como fazer para mudar essa realidade?
Uma análise da situação atual
Para começar, precisamos compreender que as necessidades dos trabalhadores e estudantes se entrelaçam, e não podem ser dissociadas. Ambos são oprimidos pelo sistema capitalista, e o jovem de hoje é o trabalhador de amanhã. Isso se torna mais claro à medida que analisamos a situação atual dos professores e trabalhadores em educação, em conjunto com a situação dos estudantes. A escola ou universidade não se caracteriza como um local de professores e outro de estudantes, mas sim como um local de professores e estudantes. A educação pública, portanto, precisa ser defendida por estes dois setores em conjunto.
É preciso salientar bem o papel dos estudantes na sociedade; o estudante “puro” (aquele que não trabalha, não produz) não tem um peso significativo na sociedade capitalista. Portanto, precisamos da união entre trabalhadores e estudantes para que as reivindicações destes últimos sejam atendidas. Mas apenas uma união é insuficiente – atos isolados em uma escola ou universidade não costumam produzir, hoje em dia, resultados concretos.
O ideal seria que houvesse uma organização que cumprisse com a tarefa de reunir os estudantes em sua luta por uma melhor educação. Essa luta deve se dar não apenas nos moldes do “Fora Collor” (última manifestação expressiva do movimento estudantil no Brasil), mas deve, necessariamente, ser uma luta contra o capitalismo. Como já vimos, é necessário ao capital reduzir os gastos sociais para conseguir manter sua taxa de lucro, que inevitavelmente tende a cair.
Contudo, as direções históricas do movimento estudantil – UNE (União Nacional dos Estudantes) e UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) – provaram que não têm mais capacidade, nem mesmo vontade, de cumprir essa tarefa, devido à sua associação com o Estado burguês. Viraram organizações não mais representativas dos estudantes, mas sim do governo que ataca esses estudantes.
Para promover o renascimento do movimento estudantil, surgiu a Conlute (Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes); no entanto, mesmo esta possui diversos problemas e desvios que não a capacitam, hoje, a assumir a liderança do movimento estudantil. Uma análise sobre o papel da Conlute pode ser encontrado, com mais detalhes, aqui.
Muito bem, já vimos que os ataques são muitos e o movimento estudantil está praticamente morto, por falta de uma direção. Ou seja, a primeira tarefa da juventude é reconstruir o movimento estudantil.
Mas e o caráter desse movimento, qual deve ser? Publicaremos um esboço sobre o assunto no próximo texto. Não deixe de ler!
Isso é uma necessidade do capitalismo hoje. Este não pode mais continuar a privilegiar uma minoria sem jogar na miséria uma quantidade cada vez maior de pessoas. As crises cíclicas – tanto econômicas como financeiras – se repetem numa velocidade alarmante, e para manter sua taxa de lucro, o capital precisa “cortar gastos” – os direitos trabalhistas e as subvenções do Estado, tais como a saúde, a educação, a previdência, entre diversas outras. Além disso, atacam ainda as organizações dos trabalhadores, os sindicatos – a Lei das Centrais Sindicais nada mais é do que a subordinação destas aos governos, que defendem os empresários às custas do trabalhador.
A juventude é quem mais sofre com todos estes ataques. Além das derrotas impostas pelas direções aos trabalhadores – o que significa que os jovens de hoje terão de lutar com mais força amanhã para reconquistar o que foi perdido –, a educação tem sofrido ataques devastadores. As salas de aula apinhadas não dão chance de que os professores ensinem aos alunos, a falta de verbas se reflete no nível do ensino e no número de materiais “gratuitos” (os livros didáticos, por exemplo, são praticamente desconhecidos no Ensino Médio); em nível universitário, há o ProUni, que compra vagas nas universidades privadas, e o ReUni, que aumenta o número de alunos nas salas de aula. O acesso à universidade é, ainda, privilégio de poucos.
Além disso, convém lembrar a falta de perspectiva dos jovens no mercado de trabalho. Não é fácil encontrar uma vaga para quem não tem experiência; quando finalmente o jovem consegue um emprego, é ganhando menos do que o trabalhador comum da área, sem carteira assinada, geralmente. A carga horária torna extremamente complicada a dupla jornada (emprego e estudo), e o jovem trabalhador tem que fazer verdadeiros malabarismos para continuar estudando.
Vejamos uma rotina comum a muitos jovens em nosso país e no mundo. Ao concluir os estudos “normais”, digamos aos 18 anos, o adolescente procura emprego – isso se já não estava trabalhando antes, nas condições expostas acima. Descobre que o diploma do ensino médio não permite que encontre um emprego que lhe permita se sustentar; então, aceita um emprego com remuneração baixa, e vai prestar vestibular – se puder, pagará um curso preparatório; senão, terá que estudar em casa mesmo, sozinho. Geralmente não consegue entrar na universidade de cara, na primeira tentativa, pois o trabalho lhe deixa cansado e com pouco tempo e disposição para estudar e se preparar. Na segunda vez, aos 20 anos, procura uma universidade onde o ingresso seja mais fácil, mas onde, porém, o curso é mais caro. Bom, pelo menos conseguiu entrar na faculdade. Agora, se colocam mais problemas à sua frente: seu salário e sua carga horária não são adequados para que faça o curso normalmente, com as cadeiras comuns a cada semestre. Vai fazendo uma ou duas por vez, para conseguir estudar e se manter no emprego. Com isso, o curso, de 4 anos, passa a 6 ou mesmo 8, e enfim, se o jovem conseguiu se manter na empresa durante o mesmo, se passou por todas as cadeiras sem precisar repetir, lá está ele, na formatura, aos 26 ou 28 anos.
Isto foi uma amostra, otimista até, do caminho que a maior parte dos jovens de hoje em dia têm de percorrer para conseguir um diploma universitário. Porém, se quiser ganhar um pouco mais, ele deve fazer uma pós-graduação ou especialização; e lá vem a dupla jornada novamente. Obviamente, isto não garante que consiga um emprego compatível com sua formação – muitas vezes isso só significa que ele terá um “algo mais” a mostrar no currículo ao disputar uma vaga em que seja necessário o diploma de ensino médio.
Mas e então, como fazer para mudar essa realidade?
Uma análise da situação atual
Para começar, precisamos compreender que as necessidades dos trabalhadores e estudantes se entrelaçam, e não podem ser dissociadas. Ambos são oprimidos pelo sistema capitalista, e o jovem de hoje é o trabalhador de amanhã. Isso se torna mais claro à medida que analisamos a situação atual dos professores e trabalhadores em educação, em conjunto com a situação dos estudantes. A escola ou universidade não se caracteriza como um local de professores e outro de estudantes, mas sim como um local de professores e estudantes. A educação pública, portanto, precisa ser defendida por estes dois setores em conjunto.
É preciso salientar bem o papel dos estudantes na sociedade; o estudante “puro” (aquele que não trabalha, não produz) não tem um peso significativo na sociedade capitalista. Portanto, precisamos da união entre trabalhadores e estudantes para que as reivindicações destes últimos sejam atendidas. Mas apenas uma união é insuficiente – atos isolados em uma escola ou universidade não costumam produzir, hoje em dia, resultados concretos.
O ideal seria que houvesse uma organização que cumprisse com a tarefa de reunir os estudantes em sua luta por uma melhor educação. Essa luta deve se dar não apenas nos moldes do “Fora Collor” (última manifestação expressiva do movimento estudantil no Brasil), mas deve, necessariamente, ser uma luta contra o capitalismo. Como já vimos, é necessário ao capital reduzir os gastos sociais para conseguir manter sua taxa de lucro, que inevitavelmente tende a cair.
Contudo, as direções históricas do movimento estudantil – UNE (União Nacional dos Estudantes) e UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) – provaram que não têm mais capacidade, nem mesmo vontade, de cumprir essa tarefa, devido à sua associação com o Estado burguês. Viraram organizações não mais representativas dos estudantes, mas sim do governo que ataca esses estudantes.
Para promover o renascimento do movimento estudantil, surgiu a Conlute (Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes); no entanto, mesmo esta possui diversos problemas e desvios que não a capacitam, hoje, a assumir a liderança do movimento estudantil. Uma análise sobre o papel da Conlute pode ser encontrado, com mais detalhes, aqui.
Muito bem, já vimos que os ataques são muitos e o movimento estudantil está praticamente morto, por falta de uma direção. Ou seja, a primeira tarefa da juventude é reconstruir o movimento estudantil.
Mas e o caráter desse movimento, qual deve ser? Publicaremos um esboço sobre o assunto no próximo texto. Não deixe de ler!
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