A revista Veja de 3 de outubro de 2007 iniciou uma nova campanha nacional para desmoralizar Che Guevara nos 40 anos de sua morte. No pacote de confusão de conceitos e termos, a reportagem da revista aprofunda a propaganda oficial do imperialismo contra o “socialismo”, em trechos como: “apesar da ruína total do socialismo, sua figura [de Che] permanece intocada no panteão dos mitos”. Uma das marcas principais dessa edição é a tentativa de confundir os termos científicos do marxismo com o método de luta de Che.
O desespero da burguesia fica evidente em cada página da revista, onde se coloca no mesmo “saco de gato” Trotsky, Stalin, Che, Fidel e Mao Tse Tung, como se fossem irmãos gêmeos. Além disso, há uma apelação para a difamação pessoal na tentativa de desmoralizar o guerrilheiro argentino, onde se afirma que “Che era um porco e não tomava banho” e que “tinha uma perna maior do que a outra”. Apesar de ser um texto pobre e sem conteúdo, que não visa outra coisa senão a desmoralização, a revista Veja faz parte do grande exército de ideólogos de que a burguesia dispõe para bombardear a consciência de milhares de trabalhadores e jovens no Brasil inteiro.
Com pequenos exemplos como estes se nota a tamanha aflição das classes dominantes e de seus ideólogos em ver que, quanto mais o tempo passa, mais jovens e ativistas estampam a figura de Che em camisetas e mais se escancara a necessidade de se acabar com o capitalismo. Nos últimos anos a imagem de Che apareceu nas diversas lutas e mobilizações no mundo todo: na “revolta dos pingüins” da juventude chilena em 2005; na rebelião estudantil e dos trabalhadores de Oaxaca, no México; nas periferias francesas e na luta da juventude francesa contra os ataques do governo, expresso no CPE (Contrato de Primeiro Emprego).
Felizmente, como afirmou o próprio Che, “eles podem matar uma, duas ou três flores, mas jamais deterão a primavera”. Fica registrado aqui o nosso repúdio a esta revista reacionária e a sua tentativa em desmoralizar um lutador social.
A revista não pára por aí: tenta transformar a imagem de Che em um ditador sanguinário que matava somente pelo prazer. Apesar da calúnia da revista, cabe fazer uma ressalva neste ponto do debate. O método de luta do guevarismo – isto é, o foquismo guerrilheiro – é completamente equivocado. O termo “marxista-leninista” que a revista Veja tenta lhe atribuir é mais enganador ainda e só serve para a confusão consciente por parte da burguesia. O marxismo-leninismo desenvolve sua ação a partir de um profundo estudo científico das massas e da sociedade, intervindo na luta de classes com um partido revolucionário organizado e disciplinado. Segundo Marx e Lênin, somente organizando a classe trabalhadora e os seus organismos de luta, com a direção firme de um partido revolucionário, se pode triunfar na luta pela Revolução Socialista. Nenhum grupo de guerrilheiros – por mais bem treinado, armado e capaz que seja – podem substituir a ação das massas e de suas organizações.
Esse método pode ser resumido da seguinte forma: a revolução deve ser obra do proletariado organizado. A sua tarefa principal não consiste apenas em tomar o poder; essa é a parte mais fácil. O objetivo principal é a construção do socialismo. Somente o proletariado pode construí-lo, nenhuma outra classe. E o socialismo somente poderá vencer no plano internacional, principalmente se a revolução triunfar também nos países mais desenvolvidos. Na organização do proletariado, assume primordial importância a construção de um partido revolucionário.
O internacionalismo de Che Guevara não se apoiava na luta e na organização dos trabalhadores. Pensou que seria possível generalizar os métodos da vitoriosa revolução cubana. Não negamos que seja possível, como provou Cuba, chegar ao poder pelo método da guerrilha, mas em circunstâncias muito especiais. Outra coisa é construir o socialismo. A revolução cubana não contou com um partido revolucionário, mas com um partido pequeno-burguês, cujo programa não contemplava a expropriação da burguesia, que foi realizada em resposta à pressão do imperialismo. Muito cedo esse partido jogou-se nos braços do estalinismo, o qual, a longo prazo, significou o estrangulamento da revolução. Não se pode apostar na repetição dessa experiência, como o fez Che. Antes e depois da revolução cubana, todas as revoluções semelhantes mantiveram o poder da burguesia, tais como as revoluções boliviana e nicaragüense.
É justamente nesse ponto que residem os equívocos de Che e de sua “doutrina”, o foquismo guerrilheiro. A burguesia e sua mídia – ávidas por lançar confusão por entre os trabalhadores e estudantes – atribui conscientemente um termo político errado à Guevara.
Apesar de seu método de luta ser equivocado, Che, passados 40 anos de sua morte, ainda consegue despertar a ira e a inconformidade perante as injustiças em qualquer lugar do mundo. Talvez esse seja um dos principais “méritos” de Che, que acaba por tirar o sono dos representantes da burguesia e dos editores da Veja.
É verdade – conforme apontou a reportagem – que a imagem de Che virou “pop”, lucrativa, etc., inclusive indo parar no biquíni de Gisele Bünchen e em lojas de grifes famosas. Porém, assim como tentaram canonizar e esterilizar as principais lições e ações de Marx, Lênin e tantos outros, a burguesia tentou faturar em cima de uma das imagens mais conhecidas do mundo – a foto tirada por Alberto Korda em 1960 – e a desproveu de todo o seu conteúdo rebelde e inconformado.
Por fim, somado a isso, a degeneração de outras organizações que utilizam da imagem de Che como símbolo, terminou com o serviço de colocar “sal na terra”. Organizações como a UJS (Juventude do PCdoB), que a utilizam amplamente, sequer sabem o que ele representou e justamente na parte onde mais temos acordo com Guevara é onde a UJS mais se apega: aos cargos - no caso, do governo e da UNE/UBES.
Apesar de todos os erros, Che representou um espírito de rebeldia que reivindicamos. O fato de não se corromper é outra virtude do guerrilheiro. Nossa missão é fazer a unidade do espírito rebelde e incorruptível de Che com o método e o programa revolucionário marxista e trotskysta.
28 de out. de 2007
Revista Veja: calúnia, difamação e muita confusão
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